Por um mundo com mais humanidade para além do capital...
O trajeto que escraviza e determina o compasso e o ritmo da produção capitalista dialeticamente pode ser o caminho que liberta. Entre as crises mundiais e o conflito íntimo por uma escolha teórica que oriente o desejo de compreender as insanidades da reprodução desigual do espaço nos deparamos com a simplicidade. Aquela qualidade que nos permite com espontaneidade e certa ingenuidade renovar nossa FÉ. Não a fé em heróis forjados, líderes autoritários ou organizações criminosas, mas no homem simples.
Diante de um mundo que cada vez mais artificializa suas relações, nada melhor do que encontrar olho no olho o depoimento de trabalhadores sobre suas dificuldades em produzir, em administrar os poucos ganhos dessa produção e o ritmo perverso de sua mobilidade diária. Observamos atentamente o brilho no olhar desses homens e em seguida nos deparamos com brilho maior ainda no olhar de muitas mulheres... aquele brilho com o qual nos identificamos... que nos trazem calma mesmo diante da manifestação de nossa dor...de nossa impotência. Aquela LUZ que quando tudo nos falta chamamos de ESPERANÇA e encontramos naqueles que pouco tempo tem pra ler, estudar e quando o fazem é no correr da vida.
A sabedoria (e incansável pesquisa!) de José de Souza Martins nos revela que todos nós somos esses homens e mulheres que não só lutam para viver todo dia, "mas que lutam também para compreender um viver que lhe escapa porque não raro se apresenta como absurdo, como se fosse um viver destituído de sentido".
Em mais um dia de sobrevivência vigiada nos confortamos com as idéias de MARTINS (2012) que nos apresenta, a partir do livro A sociabilidade do homem simples, "uma sociedade dividida de muitos modos, marcada pela diversidade de tempos que se adiantam e que se atrasam, negando-se por isso, na falta de coerência, ainda que aparente. Uma sociedade cuja existência é marcada pela dominação e alienação que distorcem a compreensão da realidade e do próprio destino". Uma sociedade que após longo ciclo de autoritarismo, passou décadas restaurando sua democracia entre a construção de um projeto que alterasse o quadro de desigualdades e a disputa vaidosa por poder. E são os homens e mulheres simples que pagarão "o pato" primeiro, sem sequer sentir o cheiro do assado dos lucros advindos de toda essa história! Há avanços na área social, tímidas mudanças para a grande parcela da sociedade secularmente explorada.
As mulheres e homens simples são pobres de condições adequadas de vida, de tempo para si e para os seus, de liberdade, de prazer no trabalho, de festa que valorize sua cultura, de compreensão acerca do seu lugar na construção social da realidade. "Uma vida em que, além do mais, tudo parece falso e falsificado, até mesmo a esperança, porque só o fastio e o medo parecem autênticos. Na abundância aparente, não estamos realizados, estamos apenas saturados e cansados em face dos poderes que parecem nos privar de uma inteligência histórica do nosso agir cotidiano".
Ainda que por tortuosos caminhos de alienação e desencantos NÓS resistimos ao estranhamento do cotidiano que nos mutila da possibilidade histórica de mudanças estruturais.
Quando se busca o entendimento científico desse conflito o vemos distorcido, importado de outras realidades sociais de outros tempos e lugares distantes. "O que nos sobrou do que nos tiraram é o que fecunda nossa espera"...que teimamos em chamar FORÇA, FÉ, AUTO ORGANIZAÇÃO, COLETIVIDADE...CONSCIÊNCIA!
O espaço acadêmico, lugar que consideramos intensamente rico em saberes e idéias, já não nos parece tão livre, luta por se libertar. Como todo resto do mundo, reflete as amarras de uma sociedade que ainda sucumbe sob o poder e o mando alheio. Mantem-se forte uma ponte imensa a atravessar (ainda bem que existe a ponte!) e muitas pedras no caminho entre a Universidade e o cotidiano do homem simples, entre as produções acadêmicas e a escola pública... a realização de uma práxis revolucionária enfim. Há valorosas experiências e resistências se constituindo, mas na mesma velocidade avolumam-se idéias e projetos de desenvolvimentismo tecnicista, uma via acelerada que sucumbe sonhos, tempos e encontros humanos... violentamente.
Ainda segundo Martins (2012), "nossa modernidade está constituída, ainda, pelos ritmos desiguais do desenvolvimento econômico e social, pelo acelerado avanço tecnológico, pela acelerada e desproporcional acumulação de capital, pela imensa e crescente miséria globalizada, dos que têm fome e sede não só do que é essencial à reprodução humana, mas também fome e sede de justiça, de trabalho, de sonho, de alegria. Fome e sede de realização democrática das promessas da modernidade, do que ela é para alguns e, ao mesmo tempo apenas parece ser para todos."
Em meio a tantas reivindicações dispersas e fragmentadas de diferentes categorias de trabalhadores, emerge a sensação, repetidamente prevista por inúmeros estudiosos, do esfacelamento da classe trabalhadora em nome do acelerado desenvolvimento do sistema capitalista. Os próprios defensores desse sistema já admitem que as inúmeras desigualdades e contradições produzidas no bojo da exploração da força de trabalho se tornaram insuportáveis e buscam, pela via da "sustentabilidade", um caminho menos perverso.
Aos trabalhadores não resta outra saída senão a tomada de consciência pacífica, mas potente o suficiente para alterar o ritmo e a direção desse processo. Não em lutas corporativas e movidas pela pontual emoção dos processos eleitorais (e ocultos interesses individuais e manipuladores em desmoralizar e enfraquecer candidaturas), mas luta organizada, coesa, com consciência de classe, mobilizando trabalhadores, resgatando de seus corações sua paixão, sua simplicidade.
Em meio a velocidade do cotidiano técnico científico informacional nos desumanizamos, esquecendo que o nosso maior tesouro, nossa FORÇA, é justamente o encontro da RAZÃO e da EMOÇÂO, do PENSAMENTO...do CORAÇÂO, DAS POSSIBILIDADES DE SOBREVIVÊNCIA PENSADAS COLETIVAMENTE pelos trabalhadores que trabalham muito e acumulam nada..
10% pra Educação? 1% pra Cultura? Claro! E ainda é pouco! Salários e condições de trabalho dignas para os trabalhadores da indústria, da saúde, da educação e demais categorias! Não somos máquinas...gente feita pra brilhar é o que somos, gente simples que move o mundo!
Este texto não pretende ser um manifesto político ligado a qualquer orientação ideológica partidária, este texto é apenas o resultado de uma reflexão...movimento do pensamento, embasado na leitura de outros estudiosos...boa reflexão a todos!
Refência Bibliográfica:
CARLOS, Ana Fani Alessandri. A Condição Espacial. São Paulo: Contexto, 2011.
MARTINS, José de Souza. A sociabilidade do homem simples – cotidiano e história na modernidade anômala. São Paulo: Contexto, 2012.
SANTOS, Milton. Técnica, Espaço, Tempo: globalização e meio técnico-científico-informacional. São Paulo:Edusp, 2008.
ELIANE CAVALCANTE